O presidente da Primeira Turma do Tribunal Superior do Trabalho, ministro João Oreste Dalazen, registrou o septuagésimo ano da morte de Fernando Pessoa, com uma homenagem ao poeta português, na abertura da sessão da última quarta-feira. Segue a íntegra da homenagem:
?Há precisamente 70 anos, em 30 de novembro de 1935, falecia em Lisboa Fernando Pessoa, o maior poeta da Língua Portuguesa. Se a literatura é ?a única verdadeira arte?, como ele dizia, Pessoa foi o maior artista da Língua Portuguesa. Pessoa está para a Língua Portuguesa como William Shakespeare está a Língua Inglesa. Espírito interrogativo, atilado e de sensibilidade aguçada, Fernando Pessoa compôs alguns dos mais preciosos versos do nosso idioma. Como estes:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és]
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda]
Brilha, porque alta vive.
Noutro momento antológico e imorredouro, ele cantou o ?Mar portuguez? de tantas conquistas para nossos irmãos lusitanos:
?Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena?.
Pessoa era ele profundo e muitos outros, parafrasendo-lhe uma obra de prosa. Ele necessitava de múltiplas personalidades para dar vazão a uma inventividade extraordinária. Poucos conheceram-nos tão bem a alma quanto ele soube expressar. No Poema em Linha Reta, por exemplo, ele pintou um retrato irretocável da mediocridade da alma humana:
?Toda a gente que eu conheço e que fala
comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe ? todos eles príncipes ? na vida...
Quem dera ouvir de alguém a voz humana
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó Príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideus
Onde é que há gente no mundo??
Fernando Pessoa era o poeta da dúvida, cuja poesia não decretava verdade alguma. Uma de suas afirmativas que mais aprecio é esta:
?Não tenho nenhuma certeza. Sou mais certo ou menos certo??
Por isso e muito mais, Fernando Pessoa foi um gênio patrício inigualável de uma poesia dramática.
Daí por que neste septuagésimo aniversário de sua morte, quero evocar-lhe a memória e render-lhe meu tributo de admiração perrene. E reafirmar:
Fernando Pessoa vive e sempre viverá, pois que ele nos legou a mais soberba das poesias. E, como disse Antero de Quental, ?os sistemas caem, os cultos desfazem-se, só os poemas parecem cada vez mais jovens e mais belos sob os beijos fatais do tempo?.
É sob a inspiração e o bálsamo da poesia de Fernando Pessoa, a quem hoje homenageio, que declaro aberta a sessão ordinária da Primeira Turma do TST?.
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