SÃO LUÍS (MA) - Para se alcançar o desenvolvimento é preciso que os homens públicos estejam comprometidos com a paz, a honestidade e o trabalho. A colocação foi hoje (20) à noite, pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Edson Vidigal, em discurso para os formandos do Centro Universitário do Maranhão (Uniceuma) e seus familiares, nesta capital. Patrono do curso de Direito, o ministro Vidigal disse que "o povo está cansado de futricas".
"Não se constrói a paz sem renúncias, sem humildade, sem elevação de espírito", enfatizou.
E prosseguiu: "Depois desta noite de colheitas, destas alegrias pela conquista do grau universitário, não haverá mais, em nenhum de nós, qualquer espaço para o desânimo. Somos filhos do Brasil no Maranhão e as nossas tradições de cultura e de civismo haverão sempre de nos impelir ao trabalho, sempre em busca do melhor, do melhor do melhor. Com altivez, com orgulho."
Exclusões sociais
Num discurso contundente, no qual chamou a atenção para as exclusões sociais, o ministro Vidigal lembrou que o Estado do Maranhão é detentor dos maiores índices de analfabetismo e que o estado possui a maior população de negros do país, fato esse que muitos fingem ignorar.
O presidente do STJ disse que as estatísticas apontam para de mais da metade dos 5,5 milhões de habitantes do Maranhão ser composta por negros. A taxa de analfabetismo chega a 26%, ou seja, bem acima da média nacional que é de 11,6%. O ministro destacou também que, dentre outras mazelas, o estado possui um dos piores índices de saneamento.
"Não podemos consentir que as guerrilhas das intrigas e as maquinações das mentiras se intrometam na arrancada de um Povo, que só espera o momento certo para retomar sua jornada ao encontro de um novo futuro. Temos potencialidades infinitas a serem exploradas em ações seguras de desenvolvimento. Temos o melhor de tudo em disposição de trabalho, que é o Povo", disse.
Sermão da Montanha
No discurso, o ministro fez menção a uma frase destacada pela formanda Simone Silva Campos: "O desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca". Segundo o ministro, "não teremos a igualdade como idéia conexa à liberdade se cada um só compreender a vida como exercício egoístico, cada um só cuidando de si mesmo".
O ministro destacou também que para se garantir a paz preciso que todos não dêem "ouvidos às mentiras" e resposta às intrigas. Segundo ele, com conciliação e entendimento é que alcançaremos a paz. E aproveitou para enfatizar que, nessa época de festas de fim de ano, onde todo mundo clama por "paz na terra aos homens de boa vontade", todos deveriam refletir o conselho de Cristo no "Sermão da Montanha":
"Concilia-te sem demora com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele. Para que não suceda que esse teu adversário de entregue ao Juiz e o Juiz te entregue ao Ministro e te encerres na prisão".
Roberto Cordeiro
(61) 3319 8268
A seguir a íntegra do discurso do presidente do STJ, ministro Edson Vidigal, por ocasião da formatura dos alunos do curso de Direito da Uniceuma, em São Luís (MA):
"Senhoras,
Senhores:
Quando me perguntam onde eu moro, respondo sempre que é no Maranhão. Brasília tem sido, não sei até quando, apenas o meu local de trabalho. Saramago dizia que "a gente habita é a memória".
A boa memória, que tenho em mim, não vai esquecer nunca as lutas mais marcantes do Povo do Maranhão querendo viver em paz num Estado de desenvolvimento com justiça social. Lembranças dos sonhos sofridos de nossa gente, querendo igualdade nas oportunidades, me instigam e me convocam a não desistir nunca de sonharmos juntos, mas sempre trabalhando por um Brasil melhor.
Quando falo aqui em igualdade de oportunidades estou me referindo a vocês, aos seus pais, seus familiares, unidos nesta noite na mesma alegria pela vitória alcançada.
O Centro Universitário do Maranhão, o nosso Uniceuma, cumpre mais uma vez a sua indispensável função
essa de preparar e entregar à sociedade os profissionais que as tarefas do desenvolvimento vão exigir no mercado de trabalho.
Sobreviverão os bons. As melhores oportunidades estarão disponíveis aos melhores.
O diploma aqui conferido não encerra a busca de cada uma e de cada um vocês por mais conhecimento. Não podemos perder de vista os que, não tendo tido a nossa sorte, ainda estão lá fora, nas periferias da sociedade, reféns de um destino que não os leva a nada.
Aliás, no convite impresso para esta solenidade há um pensamento destacado por uma colega de vocês, Simone Silva Campos, assim
"O desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca". Isso mesmo, Simone. Não teremos a igualdade como idéia conexa à liberdade se cada um só compreender a vida como exercício egoístico, cada um só cuidando de si mesmo.
Milhões de pessoas na pobreza são corroídas pela fome, pelo desalento das enfermidades, pela tristeza do analfabetismo, pelo massacre do desemprego. E quantas na infância ou na velhice não morrem atacadas por alguma doença que poderia ser evitada com uma vacina de poucos reais ?
Sem ir mais longe, ficando apenas no Maranhão, encontramos uma das mais altas taxas de analfabetismo no País - em torno de 26%, enquanto a média nacional é de 11,6%. Cerca de um milhão de analfabetos. É como se toda a população de São Luís não soubesse ler e escrever. Temos, igualmente, um dos piores índices de saneamento e outras tantas mazelas.
De que lado nós, os vencedores, estamos ?
Nosso lado é o da justiça, que resultará em nada se o Estado de Direito Democrático não for capaz de cumprir perante a sociedade todas as suas promessas. Nosso lado é da afirmação da igualdade sem a qual a liberdade é uma miríade e a República, uma ficção.
Nossas fileiras compreendem que a justiça não tem vez onde há miséria, onde há analfabetismo, onde há preconceito, onde há desemprego, onde há impunidade, onde há insegurança pública.
Nós, que estamos entre as minorias privilegiadas do País, não podemos continuar ignorando o gravíssimo problema da exclusão social não só em relação às mulheres, cuja participação ainda é ínfima na administração pública e nas empresas, como igualmente em relação aos negros.
No Maranhão, fingimos ignorar que a negritude, descendente direta dos que se homiziaram nos quilombos, representa mais da metade da população do Estado. As estatísticas variam entre 55% e 73,36% entre os 5,5 milhões dos que habitam o nosso território.
Todos fingimos não ver o rosto discriminado dessa gente, tão anônima e tangida que tem sido dos degraus das oportunidades. Fingimos não ver, mas o Maranhão está, sim, entre os três Estados de maior população negra do Brasil. E entre os maiorais na exclusão social.
Não podemos consentir que as guerrilhas das intrigas e as maquinações das mentiras se intrometam na arrancada de um Povo, que só espera o momento certo para retomar sua jornada ao encontro de um novo futuro. Temos potencialidades infinitas a serem exploradas em ações seguras de desenvolvimento. Temos o melhor de tudo em disposição de trabalho, que é o Povo.
Não será dando ouvidos às mentiras e respondendo as intrigas que garantiremos a paz. Será, sim, com a conciliação, com o entendimento. Nesta época de festas, em que o mundo clama por "paz na terra aos homens de boa vontade", vale refletir sobre o conselho de Cristo, no seu sempre atual Sermão da Montanha:
Verbis:
"Concilia-te sem demora com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele. Par
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