As explicações dadas ontem pelo presidente e um dos sócios da empresa Brazilian Express Transportes Aéreos Ltda. (Beta), Ioannis Amerssonis, não convenceram o sub-relator de Contratos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios, deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), da legalidade dos contratos firmados com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). A Beta, que presta serviços para a estatal e foi subcontratada pela Skymaster em 2001, é acusada de fazer conluio com a Skymaster para superfaturar os preços dos contratos do correio aéreo noturno.
O depoimento do empresário foi suspenso e será retomado na próxima terça-feira (20). Cardozo explicou que o prazo servirá para que um perito analise mais trechos das fitas de vídeo entregues à comissão por um jornalista, com conversas entre Amerssonis, sócios da Beta e outros empresários.
Na reunião de ontem da sub-relatoria, o deputado mostrou ao depoente um trecho da gravação de uma conversa dele com o ex-sócio Antônio Augusto Moratto. Os encontros foram gravados por um funcionário de Moratto, a mando dele próprio. No trecho analisado pelo perito da Unicamp Ricardo Molina, Amerssonis conversa sobre valores supostamente pagos pela Beta como propina para prestar serviços aos Correios.
Sonegação
Na gravação, Moratto discute com um funcionário, na presença de Amerssonis, os valores que a empresa estaria recebendo dos Correios por conta dos serviços prestados. Amerssonis faz referência ao ex-presidente dos Correios e da Varig Log, José Carlos Rocha Lima, e aos valores que seriam recebidos dos Correios pela Beta. Por sua vez, Moratto cita na gravação recursos que seriam pagos pela própria Beta aos Correios (suspeita de propina) e à Varig Log, sem motivo aparente, e chega a falar em outros R$ 120 mil não contabilizados por terem sido "sonegados".
Amerssonis não conseguiu explicar ao sub-relator porque há coincidência nos valores encontrados em uma planilha da empresa e os citados na conversa. De acordo com o documento entregue à CPMI e com a conversa gravada, a empresa teria feito um acerto com alguém dos Correios, que recebeu R$ 120 mil, e da Varig Log, que teria levado R$ 28 mil. O sub-relator suspeita que o acerto seja a comissão paga a fim de favorecer a empresa na licitação para serviços de transporte aéreo para a estatal.
Conluio
Segundo Cardozo, um relatório da Controladoria Geral da União mostrou que a licitação para o serviço postal aéreo foi conduzida e que houve acordo prévio entre a Beta e a Skymaster, empresas participantes da disputa, para definição dos preços.
O deputado observou que uma das provas desse "conluio entre as empresas" é o termo de compromisso de subcontratação firmado em 2000 pelos representantes da Skymaster, Luiz Otávio Gonçalves, e da Beta, Antônio Augusto Conceição Moratto Leite Filho. No termo, que data de quatro dias antes da reunião de abertura das propostas que participariam da concorrência do correio aéreo noturno, as empresas se comprometiam a dividir, meio a meio, os serviços que uma ou outra viesse a contratar junto aos Correios.
Mensalão
Antes de exibir a gravação periciada, o sub-relator questionou várias vezes o depoente sobre sua participação em conversas nas quais os valores e os acertos teriam sido discutidos. Amerssonis negou várias vezes ter conhecimento dos fatos citados na conversa ou mesmo ter presenciado algum diálogo sobre tais valores e disse que seu ex-sócio poderia explicar melhor a situação.
Cardozo contestou as negativas de Amerssonis ao afirmar que o tom da conversa demonstra que o depoente sabia o que estava sendo dito em um diálogo que não era secreto. "A partir dos indícios, podemos concluir que havia em 2002 um 'mensalão' para a Varig e para os Correios?", ironizou o parlamentar. O dono da Beta insistiu no argumento de que, na época dos fatos, a gestão da empresa era feita por Antônio Moratto, seu ex-sócio.
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Reportagem - Cristiane Bernardes
Edição - Marcos Rossi
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