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Cientistas discordam de diagnóstico de aftosa no Paraná

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Por: Agência Câmara
Data de Publicação: 13 de dezembro de 2005
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Técnicos do Ministério da Agricultura e cientistas do Paraná discordaram sobre o diagnóstico de febre aftosa no estado, durante audiência pública promovida nesta terça-feira pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.

Os professores argumentaram que os sintomas clínicos apresentados por parte do rebanho, aliados aos testes sorológicos aplicados, não são suficientes para caracterizar a doença. Já o secretário de Defesa Agropecuária, Gabriel Alves Maciel, e o coordenador-geral de Combate às Doenças do Ministério da Agricultura, Jamil Gomes de Souza, garantiram que o diagnóstico de focos de aftosa no Paraná foi correto.

Focos relacionados

Ao relatar as medidas tomadas pelo Ministério da Agricultura após identificar o foco de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, Jamil Souza enumerou os três fatores que levaram o órgão a concluir pela existência de focos também no Paraná: a sintomatologia clínica (os animais apresentaram lesões na boca e nas patas), a origem dos animais e o laudo de sorologia positiva.

Em relação à origem dos animais, Souza explicou que alguns deles saíram de uma fazenda do Mato Grosso do Sul, vizinha a uma propriedade na qual se detectou um foco, para outra fazenda do mesmo dono, no Paraná. A transferência ocorreu no dia 24 de setembro - antes, portanto, da identificação do foco sul-matogrossense. No dia 4 de outubro, alguns desses animais foram a leilão na cidade paranaense de Londrina. Dali, espalharam-se pelo Paraná.

Divergências no diagnóstico

Segundo o representante do ministério, os exames detectaram no sangue de alguns animais a presença de anticorpos para proteínas do vírus, situação que pode caracterizar a doença quando o animal não foi vacinado. A mesma metodologia é usada para declarar uma área livre de febre aftosa.

Entretanto, segundo os cientistas, a testagem realizada não é confiável e as lesões identificadas poderiam ter sido causadas por estresse ou por outras doenças, como a diarréia viral bovina em sua forma aguda.

O professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Amauri Alfieri, doutor em virologia animal, citou pesquisa científica que revela que aproximadamente 13,5% dos animais vacinados apresentam resultado soropositivo no tipo de teste feito nos animais do Paraná. Segundo o professor, na amostragem desse estado - bem menor do que a amostragem do estudo e proveniente de uma área de risco -, o nível de resultados positivos foi de cerca de 15%, baixo para justificar a identificação do foco.

Sintomas atípicos

O coordenador do curso de Veterinária do Centro Universitário de Maringá (Cesumar/PR), professor Raimundo Alberto Tostes, também afirmou que os animais que apresentaram lesões não tinham sintomas claramente provocados por febre aftosa. As lesões, segundo o cientista, poderiam ser conseqüência do processo de estresse gerado no transporte e no próprio leilão dos bichos. "A rigor, não existiam sintomas clínicos nos animais", declarou.

Tostes citou o caso de uma novilha sacrificada em Maringá (PR) que mostrou não ter o vírus, apesar de mostrar lesões, ser proveniente do leilão de Londrina e ter apresentado a proteína reagente no teste sorológico. "Convido os senhores e verem o caso mais atípico de febre aftosa que já vimos na literatura médica nacional: o de animais que engordam duas arrobas (30 quilos) em duas semanas", ironizou.

Vacinas impuras

Já a diretora de Programas da Área Animal do Ministério da Agricultura, Tânia Maria de Paula Lyra, revelou que algumas vacinas contra a febre aftosa podem ter resquícios de proteínas, o que induz a um resultado sorológico de falso positivo. "Alguns países já tiraram determinadas vacinas de circulação exatamente por causa dessa reação sorológica", disse Tânia.

Durante a polêmica sobre a validade ou não dos testes, o chefe do Departamento de Fiscalização e Defesa Agropecuária do Paraná, Felisberto Queiroz Batista, confirmou que em nenhuma das amostras do gado do Paraná o vírus da febre aftosa foi isolado. Batista concordou com especialistas presentes na audiência pública que a técnica usada na análise clínica não é conclusiva e, por essa razão, considerou "precipitado" um diagnóstico baseado nessa técnica de análise.

Segundo Felisberto Batista, os animais sacrificados haviam recebido quatro doses de vacina em dois anos de vida; por isso, havia uma chance enorme de mostrarem uma "reação cruzada", ou seja, o falso positivo. Os casos de focos de aftosa no Mato Grosso do Sul e do Paraná, na opinião do técnico, precisam ser melhor estudados. "Tiramos uma grande lição disso tudo, e vamos aperfeiçoar o nosso sistema de defesa sanitária", concluiu.

Níveis de positividade

Em resposta aos demais palestrantes, o coordenador-geral de Combate às Doenças do ministério, Jamil Gomes de Souza, ressaltou que os níveis de resultados positivos na testagem sorológica apresentada pelo País para a Organização Internacional de Sanidade Animal (OIE) são sempre inferiores a 1%. Segundo ele, níveis superiores a esse, mesmo sem a incidência de focos, já não seriam aceitos para se considerar uma área livre da aftosa.

O técnico ressaltou que as regras para a determinação do foco são estabelecidas pela OIE. O ministério, disse, apenas aplicou os critérios determinados. "Normalmente, são feitos testes no rebanho vacinado, mas os índices de reatividade encontrados 60 dias depois da vacinação são muito menores do que os encontrados nos animais do Paraná, cuja vacinação havia sido feita em maio deste ano", explicou.

Jamil Souza argumentou que o vírus da febre aftosa tem um comportamento diferente em populações desprotegidas e naquelas protegidas. "Se a população tem algum tipo de proteção, o vírus se manifesta de forma menos severa", disse. Segundo ele, os animais da fazenda Bonanza, no Mato Grosso do Sul - que teria sido a origem do gado levado para o Paraná - apresentaram as lesões, algumas em fase de cicatrização. "Importante é o controle epidemiológico. Isto é, 1% de reatividade em testes sorológicos em animais que vieram de um foco não pode ser considerado um número irrelevante", ressaltou.

Verbas liberadas

Para o presidente da comissão, deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), o Paraná encontra-se em uma "situação caótica" e o Brasil está totalmente descreditado na área da sanidade animal. "Precisamos de pessoas qualificadas para fazer o diagnóstico. Além disso, não se pode ser punido pelo excesso de cuidado", defendeu.

O parlamentar questionou os representantes do ministério sobre a convicção do diagnóstico e recebeu a confirmação deles.

Ao final da audiência, o secretário de Defesa Agropecuária informou os parlamentares sobre a liberação de R$ 37 milhões para a modernização dos laboratórios do seu ministério.

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Reportagem - Cristiane Bernardes

Edição - Rejane Oliveira

 

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